a verdadeira sujeira
Quando achamos que tude está evidente no país que sustentou 350 anos de escravidão e é um dos mais desiguais do planeta, eis que um dos “pensantes” da nação é surpreendido por um problema técnico. Mais uma máscara cai.
Boris Casoy, dizem as más linguas, era do Comando de Caça aos Comunistas enquanto cursava o Mackenzie. Ninguém precisava me contar. Seus comentários reacionários nos telejornais que apresentou deixam clara essa inclinação.
O jornalista no dia 31/12 zombou dos garis, que no “alto de suas vassouras”, no dizer do próprio jornalista, desejavam bom ano novo ao país. Classificou o trabalho desse homens dignos de “o mais baixo na escala do trabalho” enquanto ria seu riso opulento.
Procurei por mais detalhes do caso. Apareceu no Google que o Jornalista pediu desculpas.
E daí? Não sei se muda alguma coisa… uma palavra proferida saí da boca como um cachorro magro na rua, já dizia Paulo Vanzolini.
Ficou no ar a certeza para quem duvidava, de que há sim uma direita no Brasil, e ela é preconceituosa e egoísta. E odeia pobre.
Só posso dizer uma coisa ao Boris, que adora falar que o “Brasil deve ser passado a limpo” e que tudo “é uuma vergonha”, e em letras garrafais:
POSSO VIVER TRANQUILAMENTE SEM SEU TRABALHO, BORIS CASOY. INFELIZMENTE PARA VOCÊ, NÓS NÃO PODEMOS VIVER SEM OS COLETORES DE LIXO.
abaixo, o vídeo com a declaração do Bóris
recomendo o ótimo texto sobre o assunto no link:
http://ghiraldelli.wordpress.com/2010/01/01/boris-casoy-o-filho-do-brasil/
Uma música para 2010
Eu não sei o que será do amanhã. Mas ele está aí.
Quem me conhece sabe que eu passo boa parte do meu presente remoendo o passado e me arrependendo de remoer o passado… Sinceramente espero que eu e você que lê quebremos esse ciclo de agora em diante.
Sempre odiei ano novo e essa coisa toda de novo ano, vida nova. Francamente! Todo o dia o mesmo sol incide sobre nós, e ultimamente ele está nos deixando sequelas devido ao rombo na camada de ozônio e as ilhas de calor. Apesar disso todo o dia é uma nova vida, não só no dia 31 de dezembro.
As coisas que falo aqui não são idéias novas. Heráclito de Éfeso, filósofo pré-socrático já dizia que nunca entramos duas vezes no mesmo rio. Tudo flui. Que assim seja, eu preciso ir em frente.
Que a música abaixo seja minha trilha sonora em 2010. Ela foi composta pelo mestre Bob Dylan. Hoje ver alguém cantando isso soa como ironia. Trata de um novo tempo para o mundo. Infelizmente, nós aqui hoje sabemos que ele não veio. A mudança nas artes, na política e nos costumes profetizada pelo bardo desembocou no vazio. Mas vou solenemente ignorar tudo isso.
Peço licença para fingir que a versão do vídeo postado aqui, na voz de Peter, Paul & Mary foi feita ontem, enquanto eu estava aqui em casa lendo, e não em 1966. Também vou esquecer que Paul e Peter estão velhinhos e viram sua geração morrer nos embalos da discoteca, música de gente conservadora para pensar um mundo diferente, mas liberal na pregação de uma vida sexual vazia e individualista. Para completar meu delírio vou esquecer que 2009 foi o ano da morte de Mary Travers, e vou sonhar com o dia em que verei essa mulher cantar ao vivo com a força e confiança mostrada no vídeo, própria de quem crê no amanhã.
De Esperança em esperança. Se não alcançar meu objetivo, vai ter valido pela travessia.
a música do ano de 2009
A música é de 1973. O compositor é tido como brega, e recentemente foi vítima de uma reportagem engraçadinha da Globo.
A banda que ressucitou a música é conhecida por ter fãs toscos (desculpas aos meus amigos que gostam), e eu sinceramente nunca curti muito, apesar de já ter ouvido que os imito na maneir de vestir, no meu cabelo e barba.
Eu não conseguirei responder se alguém perguntar como aconteceu minha relação com esta canção triste. Sei apenas que é minha canção em 2009, e espero que não seja em 2010.
à palo seco.
abaixo o poema de mesmo nome de 1960, de um dos meus preferidos, João Cabral de Melo Neto:
Se diz a palo seco
o cante sem guitarra;
o cante sem; o cante;
o cante sem mais nada;
se diz a palo seco
a esse cante despido:
ao cante que se canta
sob o silêncio a pino.
O cante a palo seco
é o cante mais só:
é cantar num deserto
devassado de sol;
é o mesmo que cantar
num deserto sem sombra
em que a voz só dispõe
do que ela mesma ponha.
A palo seco existem
situações e objetos:
Graciliano Ramos,
desenho de arquiteto,
as paredes caiadas,
a elegância dos pregos,
a cidade de Córdoba,
o arame dos insetos.
Eis uns poucos exemplos
de ser a palo seco,
dos quais se retirar
higiene ou conselho:
não de aceitar o seco
por resignadamente,
mas de empregar o seco
porque é mais contundente.
NATAL…
Ninguém lembra o porquê do Natal. O nome do fundador do movimento religioso derivado do judaísmo que ganhou o Império Romano e posteriormente todo o Ocidente só é lembrado para a venda de CDs de canções melosas.
Este blog parte da idéia que é possível falar coisas universais a partir de coisas particulares. Por isso recorro novamente a uma canção, como fiz em outros posts para exprimir o que será esta noite de Natal para mim.
O vídeo é uma parte da Opera Rock “Tommy”, da grande Banda Inglesa “The Who”. Sugiro para quem não conhece. Quem já teve contato, peço que veja ou ouça de novo. É um clássico dos nossos tempos.
Bom Natal para os que gostam da data. Bom “dia do 13º salário” para a maioria das pessoas que se mataram de comprar nas últimas semanas e esqueceram o que representa o nascimento no presépio. Felicidade a todos!
Serra e o exterminador…
no fatídico ano de 2008, o movimento estudantil veiculou uma imagem do nosso governador Serra empunhando uma arma. Abaixo, um texto do tipo: Serra, “o exterminador do futuro”. O cartaz alertava aos paulistas o que o governo desse senhor estava (e está) fazendo com o futuro do Estado: formando uma nova geração de analfabetos funcionais e professores exauridos, como também jogando o Ensino Superior público em um caminho de esfacelamento.
Hoje recebo um email com o link do vídeo abaixo:
parabéns ao autor…rs
Saber, Saber e Saber
Não sei o porquê da maioria das coisas. Creio com muita fragilidade na Verdade que outrora guiou minha vida, e me manteve em pé no nosso chão.
Agora no fim de 2009, faço o inevitável balanço das minhas últimas décadas de vida e um tremor percorre minha espinha: não bati a maioria das minhas metas de vida. Não construí um patrimônio, não enterrei todos os meus mortos, não doutrinei meus fantasmas. E o pior de tudo: não acumulei erudição o suficiente. Não li muitos livros essenciais, não tive muitas experiências de vida que me levariam a um conhecimento que superasse as limitações da nossa Zona Leste.
Meus conhecimentos em idiomas estrangeiros é superficial, não ultrapassa a habilidade da leitura, espero que isso mude até a conclusão dos meus trabalhos de mestrado com os meus amigos jesuítas, esses sim “savants”.
Mas sabem o que eu queria ter?
SABEDORIA, muito mais do que sagacidade ou todo esse conhecimento. Se tivéssemos essa ,seriamos felizes. Não entraríamos em enroscos que não sabemos lidar, não nos entregaríamos a qualquer devaneio, não teríamos o desgaste das lutas inglórias.
Vocês já conversaram com um sábio? Geralmente eles são idosos. Não estou falando de velhos rabugentos, vencidos pela amargura: geralmente esses são os vencidos. Eles cultivaram rancor a vida inteira e agora colhem os frutos podres.
Gosto de conversar com um amigo mais velho que eu. Ele fala de coisas que não aprendeu nas três faculdades que cursou, nem leu nos idiomas que domina. Aprendeu com a mãe, no seu trabalho de juventude, na tortura do ônibus lotado e no seu trabalho com os pobres. Teve a percepção aguçada para coisas boas, desprezou as ruins.
O que mais gosto nessa Sabedoria é o poder que ela dá de aceitar a realidade afastando a tentação do conformismo. Aceitação e conformismo, como contrabalancear?
Apesar de parecer, esse não é um texto de lamentações. É um esboço de ambições e uma sugestão de um caminho a ser seguido.
Será que conseguimos?
Vitória
Meus dias andam mais mal escritos que o normal. Algumas coisas me aborrecem demais. Cores apagadas e borrões infindáveis… Mas agora não quero falar disso.
Um irmão me ligou com alegria na voz. Contou sobre uma vitória. Suas palavras eram um jato de cores que saía do telefone, acabei irradiado também.
Amizade é para poucos, e sou um deles. Meus amigos são meu único bem, valor incalculável, não teria dinheiro para comprar algo do tipo. Mesmo assim eles estão do meu lado.
Como juntei essas pessoas perto de mim? Alguns ficam mais de longe, mas estão no pensamento, todos os dias da minha vida. Outros posso ver com mais frequência, e sei que a amizade duraria mesmo com os duros golpes da distância.
Esse irmão em especial tem paciência de Jó comigo. Descarrego muitas coisas ruins no ouvido dele. Rimos das nossas derrotas, lamentamos algumas alheias, e erguemos a cabeça ante a vida. Venha o que vier.
Meu amigo, só me resta dizer PARABÉNS, e agradecer a chance que você me deu de poder ficar alegre com sua conquista! Afinal de contas, derrotas só as do nosso Corinthians!
sempre a mesma sede II (turn, turn, turn)
Turn, turn, turn….
Estou com muita vontade de falar sobre isso tudo. Sobre o tempo, sobre os ciclos, sobre as mudanças.
Mas achei pessoas que falaram dessas coisas antes de mim, já que não há nada de novo debaixo do sol…
The Byrds, banda dos EUA, gravaram esta música interessante, ela mesma com uma idéia nada nova. Ela é inspirada no capítulo 3 do Eclesiastes, o mesmo livro citado em post anterior. De qualquer forma não escrevo mais por hoje , a música dá conta do recado.
Sempre a mesma sede…
Não há nada de novo debaixo do sol. Uma coisa da qual se diz: “Eis aqui algo de novo”, ela já nos precedeu, nos séculos que houve antes de nós. (Ecl 1,10).
Ouvi de uma pessoa que citar a Bíblia é algo brega. Não estou nem aí.
Esse trecho do livro do Eclesiastes, tradicionalmente atribuído ao Rei Salomão, tido como o mais sábio dos homens que já pisou nosso chão resume meu estado de espírito.
Incrível! Nem meus pensamentos são inéditos. Alguém já exprimiu o que sinto em um livro da Idade Antiga.
E os dias mal escritos andam assim. o sono é sempre o mesmo, fazendo dupla com o cansaço que exaure com a mesma impiedade de sempre. Fome e a comida fazem a mesma jogada ensaiada. A chuva refresca o calor que bate. A noite cai como uma pedra jogada num rio.
Os problemas sempre são os mesmos. Nossa impotência também. Os golpes de vitória, caiam na real… Não se iludam: não nos propomos problemas que não possamos, mesmo com muitos custos, sermos capazes de resolver.
As pessoas que você conhece, sempre iguais. Não duvido da singularidade do ser humano, mas é tudo muito estranho. As pessoas para viverem nesse mundinho cão acabam se tornando extremamente previsíveis. Não existe encanto, “nada é divino, nada é sagrado, nada é maravilhoso”, um poeta já disse.
Apenas um compasso. O relógio, essa invenção escravizante, já aparece nas entrelinhas no versículo bíblico. Não só ele. As engrenagens do motor, as metas de venda, os prazos para a entrega de trabalhos. As coisas não mudaram, se intensificaram, agora nossa mesmice segue um ritmo que desafia a cadência do sol.
Estou errado?
Sobre a merda e os abismos…
Já escreveram e falaram muito sobre o português que falamos e o que escrevemos. Um abismo separa os dois. Alguns, imbuídos de uma espécie de dever, costumam realizar cruzadas para que os dois sejam um só. Geralmente esbarro com essas pessoas e o que sinto nelas é uma espécie de arrogância, um zelo pela norma culta que apenas serve para marcar alteridade, junto com uma aura de “intelectualidade”. Como advogados, se gabam por conhecer as leis e as aplicarem, desprezando os que não fazem isso, reduzindo essa coisa viva e solta chamada idioma em um conjunto de prescrições, fingindo ignorar que grandes nomes da literatura souberam desprezar tudo isso em muitas de suas obras primas.
Outro abismo, tão grande como o descrito acima é sobre a realidade, que se impõe em nossos dias, e as falas dos políticos. Memorável exemplo foi o caos vivido por São Paulo, atacada pelo PCC naquele maio de 2005. O governador, com o olhar tranqüilo apareceu na televisão e pronunciou de sua torre de marfim que tudo estava sob controle, com a população toda com medo de colocar o nariz para fora de casa…
Em nosso ano de 2009, mais um abismo. Alguns leitores deste blog nem sabem, mas existe um bairro em São Paulo chamado Jardim Romano. Fica no extremo leste da cidade.
Como nós paulistanos do leste sabemos, por aqui adoramos debochar de quem mora em bairros mais “orientais” que os nossos, numa tentativa de auto- afirmação. Os habitantes do “Romano” sofrem com isso. É incrível. Dividimos os mesmos ônibus que eles. A única diferença é que eles descem no ponto final. Nós ficamos quinze minutos na viagem, eles, uma hora e meia.
Esses colegas de viagem ainda estão sofrendo com a enchente de uma chuva que ocorreu semana passada! Políticos bonitinhos de plantão disseram que estava tudo sob controle e só apareceram lá com a cara de Bob Esponja antes de ontem…
Se você mora em um bairro alto e bonito e nunca viu uma enchente, vou te contar: a água é lamacenta e cheia de merda… Sim, os habitantes do Jardim Romano estão desde a semana passada na MERDA. Os políticos, na outra margem do abismo repetem o mantra: está tudo sob controle. Os ratos nadam, as pessoas perdem os móveis, as casas, e tudo está sob controle.
Enquanto isso, em outro ponto do Brasil, uma frase foi proferida na última quinta. O Presidente Lula, em um discurso, apagou por alguns segundos todos os abismos. Do idioma escrito e o falado, dos discursos e das ações dos políticos. Resumiu o que o povo precisa e o que o governo deve fazer: Tirar o povo da merda!
Frase certeira, que comunicou tudo a todos. Claro, os “Pasquale”, os “tucanos intelectuais” e tipos parecidos ficaram ouriçados. Mas foi perfeito. Com certeza é só isso que os habitantes do Romano querem. E com eles, toda uma multidão de Brasileiros: ajuda para sair da merda. As coisas não estão sob controle para essas pessoas, e não sejamos idiotas: enquanto eles não estiverem bem, eu e você não estaremos. Porque merda é assim: fede muito e seu cheiro se alastra. É pegajosa e suja tudo.
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